Marcos Roberto de  Matos - Desenhista e Artista Plástico
Trotes: 0xx54-3385-2178 ou 0xx54-9158-3970

Principal Pinturas Desenhos Charge Tiras Devaneios Perspectiva Currículo

Marcos Matos, Boca, Eu, tenho 33 anos, sou casado com Verônica e pai de Sther.  

Faço de tudo um pouco, principalmente se for relacionado a desenho ou pintura, e sou adepto àquele ditado:

 "Quem sabe um pouco de tudo,... é ruim em tudo".

O fato é que adoro fazer minhas coisas com as próprias mãos. Não me interpretem mal.

 

Artigos contidos nessa página: 

Momentos únicos

Uma Mulher Inesquecível

Autodidata

O meu primeiro amor

Meus Malditos Professores
O filho do diretor
A alma e a arte
Walkman
Beber ou não beber?
Beleza interior
Minha paixão secreta
Lucidez

 

Brinde

Sorteio de uma obra. Vá até a página principal e leia o regulamento.

Aviso aos navegantes:

É muito provável que chagaste aqui após digitar alguma palavra num site de busca.  Bom...aproveite e aprecie meus outros predicados além dos textos à direita que provam que escrevo divinamente bem, veja pinturas, tiras, desenhos e charges.  Clique nos links acima.

 

 

Momentos únicos

      Observe a figura ao lado, não sei bem o que foi feito com ela, mas acredito que foi essa pintura que enviei para uma professora minha, tipo: "Veja!  Não está orgulhosa do seu discípulo?".  O fato é que encontrei uma foto dessa tela que pintei em 2001, e fiquei com uma vontade imensa de vê-la de novo, afinal foi um dos melhores quadros que pintei.  O meu primeiro pensamento foi de reproduzi-lo a partir da foto e pronto, tenho ele de volta.  Não!  Não conseguiria, aquele momento foi único, assim como muitos momentos da vida.

      Existem uma certa perda de inspiração como observo em muitos artistas, cantores especificamente, que fazem algumas ou alguma canção de boa aceitação em sua juventude e passam a vida a repetindo, vivendo à sombra das mesmas, não conseguindo reproduzir o mesmo sucesso com outras, parece que perderam aqueles momentos de genialidade.  Teoricamente com o amadurecimento e enriquecimento intelectual deveria haver evolução no trabalho, mas praticamente isso não acontece.  Ou até acontece e nós, espectadores,  nos atemos às obras de assimilação fácil obrigando o artista a se prender ao passado para satisfazer a um público pouco exigente, ou mesmo para encher o bolso de grana.
       Há tantos momentos que não podem ser revividos e passamos a vida inteira suspirando por eles, amores não são só pessoas e coisas palpáveis, nossos grandes amores também são cheiros, sons, sabores e sensações a que eles nos submetem.  Odiamos muitas situações, festas e lugares que não conhecemos ninguém, momentos de dificuldade, mas estranhamente nos pegamos com nostalgia daquele momento, momentos difíceis também nos dão saudade, mas provavelmente é porque já sabemos o desfecho, sobrevivemos e ficamos mais fortes e sábios, podemos agora até rir daquele friozinho na barriga.
       Cometo certa heresia ao afirmar em determinadas conversas que a música dos anos 80 eram as melhores, ou comento que não se fazem mais quadrinhos como antigamente, a lasanha que minha mãe faz hoje não é igual àquela que eu comia aos 12 anos.  Mas é porque hoje eu não ouço música e leio histórias em quadrinhos com a mesma inocência e euforia que tinha na minha pré adolescência e acho que até meu paladar está mudado.  Existem momentos que não recuperamos por nos tornarmos diferentes,  se fosse agora eu faria isso ou aquilo em determinado instante, ou não exporia tal fato, mentiria ou falaria a verdade.  Para ter uma idéia acabo de deletar um parágrafo que escrevi com certa convicção à cinco minutos, por não concordar mais com ele.
       Casais que se reencontram e voltam a namorar depois de 40 anos talvez não sejam ainda apaixonados um pelo outro exatamente, mas sim à juventude em que viveram juntos e querem retomá-la, escutar as mesmas músicas, tentar viver novamente com certa impetuosidade que é o que caracteriza mais a nossa juventude. Tenho uma teoria de que deveríamos casar com nosso primeiro amor, pois nunca mais amaremos com a mesma inocência, posteriormente ficamos ariscos, traumatizados, traímos e somos traídos, nossas relações se tornam mais racionais e menos entregues de alma, sempre esperando e preparados para um desfecho negativo.  É possível que aquele momento em que disseste "eu te amo" àquela pessoa,  poderia ser verdade naquele instante, se o momento fosse eterno o amor seria eterno, mas tudo passou, aquele tempo não existe mais e você agora tem outro amor.
        É...a situação em que produzi a obra que deu vazão à esse devaneio  não poderá ser reproduzido nunca mais, assim como dizem que ninguém se banha nas mesmas águas do mesmo rio duas vezes.  Em primeiro lugar eu  tinha 29 anos quando pintei essas duas gordas, segundo alguns idade mental de 15, o espaço que usei como atelier não está mais disponível, e meu nível de adrenalina não vai ser o mesmo visto que não estarei criando, não existe a dúvida, a incerteza do resultado final, estarei preso à foto, à tentativa de fazer parecido, não haverá espontaneidade, os traços podem sair mais perfeitos porém travados e inexpressivos.  Em respeito a esse trabalho que chamava de "mulheres clássicas", nem vou tentar reproduzi-la, ou até vou se mudar de idéia, afinal amanhã é outro dia, serão outros momentos e quem sabe serei outro e, espero, melhor.

Uma mulher inesquecível

        Quando fomos para o hospital da cidade vizinha, a obstetra era de lá, para a minha esposa dar a luz à nossa pequena Sther, nasceram mais quatro bebês entre aquele dia e o dia anterior.  Dependendo de quem ler esse texto pode até achar pouco, mas para a nossa região é bastante.   Era mudança de lua, o senso comum diz que nascem mais crianças nesse período, os estudiosos dizem que não tem nada a ver mas o importante é que nesse caso o senso comum venceu pois tem dias que não nasce ninguém. Havia um quarto em que tinha três mães com seus respectivos filhos e tive a oportunidade de ver todos, constatando que recém nascido não são uns iguais aos outros, como muitos dizem. Acho que todos sabem mas é bom reafirmar que é só em novela que a mocinha sente as contrações num lugar ermo e minutos depois dá a luz sozinha, ou na melhor das hipóteses aparece o mocinho. Na vida real o trabalho de parto dura horas, as vezes muitas.  Então cada vez que a minha esposa ia fazer os exames para ver a dilatação eu ia dar uma olhada nos outros bebês, por xereta mesmo, e ao mesmo tempo  tentando fazer uma projeção de como seria a minha filha que estava para nascer. 
        Tinha mães acompanhadas com suas mães, irmãos, pais e maridos, mas chamou-me atenção uma mulher que estava só e seu filho havia nascido no dia anterior, de parto normal e ela iria para casa, ou pelo menos sairia do hospital, naquele dia. Era uma mulher de cabelos claros, baixa estatura, ao meu ver era bonita, todas as mães são bonitas,  não sei precisar sua idade, poderia ter 16 como 26 anos.  A cada xeretada que eu dava naquele quarto, sempre haviam pessoas visitando os dois outros bebês e ela sempre só e, por ironia do destino, ficava separada de todos os outros pois a porta era no meio do cômodo, sendo duas camas para a esquerda e duas para a direita.  As duas outras mães estavam para a esquerda e ela numa cama da direita, sendo que a outra cama estava vaga.  No lado esquerdo sempre aquele alarido festejando os bebês e no lado direito apenas aquela jovem mãe com seu neném.  Eu sempre ia ver seu filho e comentava algo gentil, ou bobo, sei lá, mas esperava que ela se sentisse menos abandonada.
        Seria um caso de partenogênese, ela teria auto fecundado e dado a luz?  O que é possível, afinal a minha esposa pariu uma menininha que é a fuça dela, não tem nada meu.  Ou aquela criança teria pai, ela teria dormido com o cara errado e ele a abandonou ao sabê-la grávida?  Seus pais estariam mortos ou a teriam abandonado à própria sorte por ter dormido com o cara errado?  Essa pobre menina também não teria um amigo, um colega de quarto, um conhecido?  Ninguém parecia se importar com a moça, isolada no seu lado direito do quarto.  Por mais fortes e auto-suficientes que alguém seja tem momentos em que as pessoas são mais frágeis e sensíveis que o normal e um momento desses na mulher seria a maternidade. Até acredito que atendimento tenha sido excelente e por bons profissionais, mas seria importante o apoio de um familiar ou amigo.  Pareceu ser uma mulher de poucas posses, estava num alojamento do SUS, breve teria que voltar ao trabalho, acredito que teria um, pois sem ninguém zelando por ela e pela criança ela teria que lutar sozinha. Concluí que a vida daquela mulher não seria fácil e o seu menino teria que ser um guerreiro, assim como sua mãe já estava sendo.
        Depois do meio dia, antes de nascer a minha filha, eu estava passeando pelo corredor, e pela porta entreaberta do cômodo vi essa mulher arrumando a criança e seus pertences para deixar o hospital.  Logo saiu do seu quarto, com uma pequena bolsa e seu filho nos braços, coberto com um tecido leve, caminhando devagar mas parecendo bem.  Desapareceu da minha vista quando a vi rumar para descer a escada e sair do prédio.  Lá fora eu creio que ninguém esperava por ela.

 

Autodidata

É comum alguém se impressionar com virtuosidades de certos artistas e exclamar: "como queria tocar como ele!", "como eu queria pintar igual a ele!" ou "também queria ser ator da globo!", mas ninguém se esforça para isso.  As vezes pintar, tocar ou representar é uma obstinação na vida de alguém, que se torna verdadeiro mestre praticamente sozinho. Mas não se iludam, ninguém pega um lápis e sai desenhando maravilhosamente bem de início, ou pega um piano e toca sem ter uma preparação.  Tudo bem... seu filho pegou seu carro e saiu dirigindo seguro e suavemente quando você foi ensiná-lo, você pode até achar que ele é um talento nato,  mas acredite...esse menino andou pegando seu carro escondido. É muito glamouroso ser autodidata dá uma certa magia às coisas, parece que tu é um gênio:

-Como tu aprendeste a tocar tão bem?

-Bom... eu estudei, me formei em música na PQP!

-Ah, bom!

Por outro lado:

-Como tu aprendeste a tocar tão bem?

-Bom...minha família tem um piano, aprendi sozinho.

-Uaauuu!!!!

Isso acontece principalmente na área artística, pois já pensou acontecer assim:

-Doutor, obrigado, o senhor salvou a vida do meu filho, disseram que o tumor era inoperável.  Em que universidade o senhor se formou?

-Não me formei, e essa é uma clínica clandestina, eu dissecava  os porcos da minha família para estudar seus órgãos...

Também se encaixam no glamour dos autodidatas os artistas "sem coragem".  "Sem coragem" são aqueles que tem tendência à arte, mas na hora de escolher sua profissão optaram por seguir uma mais segura e rentável, o que não se pode condenar, pois passar dificuldades financeiras não são todos que suportam.  Os "sem coragem" são aqueles que pegam o violão na festa e dão uma palhinha.  Aí entra a parte do glamour, o público fica boquiaberto e o acha um fenômeno musical, que deveria ter se dedicado à música e não a ser um próspero contador.  Esse mesmo público que fica conversando e não presta atenção no músico com coragem que dedicou sua vida à música e batalha todos dias tocando em botecos para ganhar o pão.  Os "sem coragem" são os pintores de final de semana igual a esse que vos escreve, que prefere apenas sonhar em ser artista, mas não tem coragem de abandonar a banca de Hot Dog na qual trabalha e se dedicar só à pintura.

E tem pessoas que não aproveitam a magia de serem autodidatas e tentam se aperfeiçoar, mais, mais e mais se tornar profissionais na sua área, se iludindo que com um canudo terão mais respaldo:

-Pai, meus colegas disseram que eu desenho e pinto super bem, queriam me comprar uns trabalhos.  Acho que vou estudar desenho!

-Sei não, filho, não seria melhor cursar uma faculdade boa... Direito, Engenharia, Medicina...?

-Não, pai, quero ser artista!!

-Tá bom...

Seis anos depois, já formado:

-Aí filho, Vendeu suas pinturas naquela exposição coletiva?

-Nenhuma, pai...

-Caramba! Que crise, como é que vamos pagar as prestações do seu Crédito Educativo? O pessoal não tá comprando nada mesmo, né?

-Bem...Pai, sabe a Carlinha, aquela menina de dez anos que pinta flores, pêras, maçãs...?

-Sim...

-Vendeu tudo!

 

O meu primeiro amor

Pelo título parece aquela canção dos Fevers, realmente tem algo a ver,  vou divagar sobre a paixão platônica, um evento que, misteriosamente, ocorre em todos os adolescentes, e até em adultos meio emocionalmente desbitolados como eu.  Não pesquisei a respeito, mas ao meu ver Paixão Platônica é uma paixão unilateral e que, de preferência, o objeto dela não tem conhecimento. Vitima colegas e amigos, mais especificamente naquele tipo rapaz cuja melhor amiga, e objeto da paixão, confidencia sobre seus fracassos amorosos e aventuras sexuais, o babaca escuta tudo, dá apoio moral e sonha que um dia, depois que ela transar com meio mundo e estiver um bagaço decadente, sobre algo para ele. Enfim, paixão platônica é uma projeção que fazemos do parceiro ideal e colocamos em alguém que conhecemos superficialmente.

Eu também, que infelizmente estou descobrindo que sou mais comum do que supunha minha vã filosofia,  fui apaixonado por uma colega de sala de aula, é um segredo guardado a sete chaves dentro da minha mente doente.  Acho que a conheci na sétima série, e meu coração foi fisgado quase instantaneamente.  Outros colegas se abriam uns com os outros sobre seus amores, os que ousavam se declarar levavam um"vai plantar batatas", afinal naquela época o ficar já existia mas não era tão banal quanto agora.  Eu ficava bem quietinho, nem para os colegas eu falava da minha paixão platônica, já pensou cair nos ouvidos dela e eu ter que plantar batatas?  Não lido bem com rejeição, é de útero, não fui um bebê planejado e esperado, na verdade vim a furo de intrometido.  Sempre fui meio tímido, minha altura era aquém da dos meus colegas da minha idade, até um baixinho da minha idade aqui da cidade era mais alto que eu na época, eu tinha um certo complexo, tudo ajudava para meu amor platônico continuar platônico.  Sem falar ainda que a menina era da "High Society" e eu proletário, apenas me sobressaía pela minha facilidade em aprender e, claro, pela minha alma pura e imortal.  Bom, como eu estava dizendo só eu sabia do meu "amor", sonhava que poderia ser correspondido, talvez a moça tivesse um desprendimento anormal, fosse um ser evoluído e me desse uma chance, então seria assim: uma menina bonita e rica que amaria um baixinho, feio, dentuço e pobre.  Que garota de outro mundo!

Essa paixão durou aproximadamente dois anos, até que um dia uma professora fez uma pesquisa de opinião entre nós alunos, se era aceitável, se daria certo relações amorosas ou casamento entre pessoas de classes sociais diferentes.  A maioria avassaladora dos alunos, inclusive eu, responderam que sim, claro, não tem nada a ver separar amor por classe social, não seria correto, não seria romântico. Claro que a resposta foi por já sermos pequenos hipócritas ou por acharmos que essa seria a resposta politicamente correta.  Para minha surpresa a minha amada respondeu que cada um deveria achar seu par romântico entre sua patota, seu círculo social e argumentou alguma coisa que não consigo me lembrar, eu estava no instante catando pedaços do meu pobre coração.  Acabou meu amor, perdi até o direito de sonhar com ela, nossos lindos filhos nunca existirão, não cheguei a odiá-la, mas reconheci a minha derrota e minha auto estima que já estava em baixa desceu ao porão. 

Não me lembro se fui colega dela no ano seguinte e não a vejo a muitos anos. Até hoje é segredo a minha primeira paixão platônica, tive outras mas não alimentei tanto quanto esta.  Não chorei ou me descabelei como fazem muitos e, hoje, admiro a audácia daquela menina que aos quatorze anos não se rendeu à hipocrisia do não preconceito e teve a coragem de falar o que pensava, sem saber que naquele momento perderia o homem que a faria a mulher mais feliz do mundo, eu.

Meus Malditos Professores

Ainda lembro da minha primeira professora, Senira, ela dava aula da primeira à quarta série do primário, primeira e terceira pela tarde e segunda e quarta pela manhã, na mesma sala, era um contorcionismo gigantesco.  A escola era de madeira com aproximadamente 8,00 x 20,00 m, dividida ao meio por um biombo, normalmente se usava apenas uma das duas salas.  Se o ensino era prejudicado?  Nem tanto, eu passei, aprendi a ler e escrever assim como muitos outros.  Para me deslocar para essa escolinha eu caminhava com alguns primos por uns quatro quilômetros, sacrifício? Também não, eu achava normal e muitas vezes percorria o trajeto puxando um caminhãozinho.

Cursei  a primeira e segunda série nessa escola, nesse meio tempo foi construída uma outra escola a uns 500 metros da minha casa, onde cursei a terceira e quarta séries.  Nessa fase tive a professora Cleci e Marinês, para mim eram duas adultas, mas hoje, pensando bem, eram meninas recém formadas no magistério, com 17 ou 18 anos cada uma.  Elas dormiam na cozinha da escolinha, longe de tudo e de todos, no final da semana iam para a casa dos pais.  Essa escolinha era ainda menor que a outra, sala única, o sistema era igual, duas séries por turno.   Naquela localidade só tinha ensino até a quarta série, tive que mudar para esta cidade, Tapera, que também não é nenhuma metrópole, com o objetivo de concluir o primeiro e segundo grau.

Já na cidade, recordo da professora que me viu esconder um chocolate sob a blusa e gentilmente me fez colocar de volta na prateleira do supermercado, era meu primeiro delito, e graças a essa professora, foi o único.  Sem essa intervenção eu poderia ser bem sucedido no pequeno furto e, quem sabe futuramente, continuado na contravenção, não sei mas é uma possibilidade, talvez eu começasse a me acostumar e perderia a vergonha na cara.  Creio que essa professora nem lembra do fato mas eu a reconheço e tenho por ela muita gratidão, ela foi minha professora um ou dois anos depois do acontecido.

Quando resolvi fazer uma faculdade de artes, pois era o que eu tinha mais afinidade, o meu principal objetivo era  apenas aprimorar a técnica e pintar paisagens paradisíacas, quadros simples, de assimilação fácil.  Sofri uma verdadeira lavagem cerebral pelas minhas professoras, além de desenho, pintura, gravura, escultura, recebi doses maciças de história da arte, impressionismo, expressionismo, futurismo, orfismo e trocentos "ismos" resultado: saí da faculdade buscando fazer um trabalho próprio, querendo fazer arte. Por isso o título desse texto "meus malditos professores", é... ao invés de me ensinarem a ganhar dinheiro usando as minhas habilidades de desenhista, simplesmente insistiram e me fazer evoluir culturalmente e como ser humano.  Entrei com um objetivo simples e saí com grandes ambições, mas como o mundo não quer saber de arte, me tornei um ser estranho nadando contra a corrente, parece que não sintonizo com mais ninguém, agora terei que fazer um tratamento intensivo, uma reabilitação para viver novamente em sociedade.  Não achei que estava tão gravemente afetado, mas a gota dágua foi a uns dias, enquanto amaldiçoava um cantorzinho num programa de TV, minha esposa disse "Pô Boca! Você não gosta de nada", descobri que estou ficando chato.

São tantos professores e tantas disciplinas que não convém ficar citando todos, de uns lembro o lado ruim, de outros o lado bom, mas o fato é que de alguma forma todos contribuíram para a minha formação, até os que me fizeram ter uma má impressão me prepararam para a vida, afinal a vida não é sorridente e positiva o tempo todo. Professores me fizeram sentir Rei, professores me fizeram sentir indigente, sei que muitas pessoas não dão atenção à opinião dos professores, mas eu acreditava que todos fossem seres superiores, uma repreensão por parte deles era a derrota, um sorriso era a vitória.  Tem pessoas que morrem sem ir a um médico, muitos não precisam de advogados e uns não sabem o que faz um economista, mas felizmente no mundo atual em que a educação está cada vez mais presente, todos passam pela escola, e consequentemente sob a supervisão de professores, sofrendo influencia por parte deles, portanto professores não são meros educadores, e nem devem se contentar em ser apenas isso, professores mudam vidas.

 

O filho do diretor

Em anúncios da TV da região a alguns anos apareceu seguidamente um rapaz, inexpressivo e sem jeito para o vídeo, sofrível, comecei a questionar como ele poderia ter chegado a fazer tantos comerciais sem ter o talento para isso, me surgiu a única resposta plausível: Ele era filho do diretor. Então se virem pessoas incompetentes trabalhando na TV, comércio, repartições ou qualquer local, pode crer que é o "filho do diretor".

Certamente o filho do diretor já foi seu colega de aula, ele te aloprava quando você ia apresentar um trabalho, te jogava giz e os professores faziam de conta que não enxergavam.  Se você tentava revidar, opa!... ninguém mexe com o filho do diretor.  O filho do diretor já nasceu para o sucesso, ele é iluminado, sempre mandou os colegas colocarem seu nome nos trabalhos enquanto ele jogava bola com outros filhos de diretores.  O filho do diretor sempre pedia um pedaço do seu lanche quando você levava, e é obvio que você dava, é bom ser amigo do filho do diretor, já ele, que comprava lanche todos o dias, nunca lhe ofereceu sequer uma mordida.

O filho do diretor é menos nocivo para a sociedade quando não trabalha, mas mesmo assim ele anda sempre de carro do ano, faz muita festa com dinheiro do papai, só fala babaquices e mesmo assim anda sempre rodeado de mulheres, afinal homens misteriosos são atraentes, o mistério de ter sucesso sem muito esforço, estudo ou trabalho. Ele é acostumado a receber tudo de mão beijada e acredita que todos tem que fazer as suas vontades, se não fazem ele esperneia e chora até o diretor dar um jeito de satisfazê-lo. O seu umbiguinho é o centro do mundo. O Filho do diretor só quer a projeção do seu nome, afinal o seu ego é bem maior que sua autocrítica.

O filho do diretor não é necessariamente filho do diretor, mas um protegido dele, um apadrinhado, filho de um apoiador de campanha política que não deu certo em nada, também pode ser o sobrinho ou parente de um Nepotista.  O seu caráter é duvidoso, ele sabe que não é produtivo, que só está mamando nas tetas e mesmo assim não se importa, não se aperfeiçoa e só quer ganhar o seu gordo salário no final do mês.

O filho do diretor aparece nos programas de auditório sempre que lança um CD novo, o apresentador como bom vaselina sempre diz que "ninguém fica tanto tempo na mídia se não tem talento", e coloca o rapaz tocar ao vivo para tentar provar que não é só um mala.  É notório que com um bom marketing, pago pelo diretor, claro, qualquer porcaria vende como água, afinal o país é cheio de filhos de diretores, que consomem o que está na mídia.  Decididamente o filho do diretor não tem personalidade, coloca para escutar a música mais pedida no rádio, se o pagode está em alta, escuta pagode, se a onda é sertanejo o indivíduo escuta sertanejo.  Ninguém é mais volúvel que o filho do diretor, segue sempre as tendências da moda, usa até brinco, pircings e tatuagens embora secretamente ache bastante desconfortável.

Pode-se reconhecer em muitos lugares o filho do diretor, é incompetente, não sabe realizar seu trabalho e surpreendentemente não é demitido. Se ele é seu colega, pior ainda, você sua às bicas para fazer seu trabalho e o dele também, ele é medíocre mas ganha o triplo que você.  Ele recebe todos os méritos do sucesso da empresa e elogios do chefe, está em todos os coquetéis representando a empresa, é o rostinho bonito. Quando o trabalho fica bom o mérito é dele, quando não agrada a culpa é toda sua.

O Filho do diretor que faz as coisas não funcionarem, é um burocrata que pede até o seu teste do pezinho para liberar um processo, assim ele mostra trabalho. Ele é o causador de filas Quilométricas e de atrasos, o Brasil é um país de terceiro mundo por culpa deles.  Caso você que está lendo esse texto se identifique com o filho do diretor, vou reservar um espaço nessa página para um direito de resposta.  Pode mandar.

 

A alma e a arte

    Acredito piamente que o artista tem que ter alma de artista, não apenas pelas habilidades motoras, nem só pela criatividade, mas principalmente pelo anseio de expressão e inovação.  Os artistas chegam a ser, em alguns momentos, considerados inoportunos pela dificuldade de satisfação com o contexto político,  social e até consigo mesmos. 

     Observo músicos, cantores, pintores que se contentam simplesmente em repetir algum trabalho consagrado, essas pessoas não são propriamente artistas, com certeza eles têm a habilidade, a técnica mas não têm a alma para se desprender do pronto.  Na mente desses diamantes brutos passa a idéia de que cantando, tocando, pintando, desenhando igual a fulano de tal eles passam a ser muito equiparado a seu ídolo, não percebendo que ser único é a maior característica artística do que  ser igual.  Claro que não é qualquer um que desenha, toca, pinta ou canta, mas entre ter habilidades um pouco acima da média e ser especial tem diferenças enormes.  Pessoas se tornam verdadeiros artistas a partir do momento em que desenvolvem sua técnica e passam a ser autores da sua obra, começam a compor ou colocar uma interpretação pessoal que os caracteriza como seres especiais.   

     Não basta ter talento técnico, tem que ter alma, o artista quer gritar, expor sua individualidade através da sua obra.  Uma boa técnica é imprescindível ao artista, para poder expressar-se na sua plenitude quando requer um trabalho de execução mais perfeita, mas não se resume só a isso.  O ser humano é capaz de aprender desde que tenha o interesse o suficiente, a técnica uns aprendem em um ano, uns em cinco, outros em dez anos, mas criar depende muito do conhecimento sobre a sua área e, principalmente, da sua necessidade de expressão.  Não defendo que um músico ou artista plástico deva ter educação formal, mas se ele tem mesmo alma de artista, além de dominar a técnica ele estuda com afinco, embora autodidata, a história do seu ofício porque não há talento que resista à ignorância.  A arte é liberdade e expressão, se você reproduz uma obra, está fadado a ficar preso àquele resultado final pré-estabelecido e não expressa nada de si, afinal o que é a obra senão a alma nua do seu autor?  Se alguém cria é porque tem algo a dizer, se não cria, passa a ser a sombra do que copia. 

 Se formos observar, cantores compositores da sua obra, não executam em shows a música igual está na gravação original, e bandas de garagem, muitas com excelentes instrumentistas, tendem a tentar repetir a melodia como escutam, chegando ao extremo de tentar fazer até a voz igual.  Há também aqueles que usam suas técnicas artísticas e se aproveitam da ignorância dos incautos, se apresentam como artistas e fazem das habilidades um verdadeiro caça níquel fazendo musiquinhas da estação, sem conteúdo, seguindo tendências para ludibriar, vender e encher o bolso de grana, isso também se repete em outras atividades artísticas.  Existem artistas talentosos na miséria e anonimato, fazendo um trabalho autêntico, enquanto oportunistas se deleitam na mídia vendendo gato por lebre e usam como desculpa a célebre frase "É disso que o povo gosta". Claro que não podemos ficar todo o nosso tempo de lazer resolvendo os problemas do mundo, mas essa campanha de imbecilização cria zumbis sem senso crítico, e que acreditam que o belo é fazer rebolar a bunda.

  Não sei se vale a pena morrer na miséria em nome de um ideal artístico, tentando fazer um trabalho autêntico apreciado por poucos e odiado por muitos, mas não podemos perder a esperança de que a qualidade vencerá a futilidade um dia, quiçá enquanto estivermos vivos.  Infelizmente viver exclusivamente de arte genuína não é fácil, nos obrigamos a desenvolver outras habilidades que nos permitam ganhar a vida sem vendermos a alma, mas, particularmente, vou me revirar no caixão se vier a morrer na miséria e pouco depois algum crítico de arte me considerar um talento incompreendido. 

 

 

Walkman

A alguns anos, logo que vim para a cidade, seguido eu ia passar os fins de semana na localidade onde passei a minha infância.  Eu tomava um ônibus até a cidade vizinha que fica a 9 Km daqui e depois pegava um que ia 40 Km pelo interior adentro.   Essa viagem de 40 Km durava aproximadamente uma hora e meia, pois entravam e saiam pessoas por todo o trajeto, então eram inúmeras as paradas, tornando a viagem mais demorada, além de que a estrada de chão, as vezes, estava em péssimo estado de conservação.

Para descontrair e passar o tempo, num desses passeios pedi emprestado ao meu colega de trabalho um Walkman, rádio AM/FM e toca fitas, que ele tinha, isso era por volta de 1989.  Ia eu muito orgulhoso escutando uma musiquinha com os fones de ouvido, quando fui interpelado por um senhor de aproximadamente 45 anos, que estava ao meu lado.  Esse senhor estava vestido à caráter, isto é, botas, bombacha, cinto, lenço no pescoço e chapéu preto, na cidade muitos usam para parecerem tradicionalistas, mas lá usam porque é a vestimenta de gala, muito mais do que usar um Smoking. Simplesmente diminuí o volume e comecei a falar com ele.  Era um homem muito gentil que me perguntou:

- Tu ouves bem com aquele aparelho?

-Escuto perfeitamente!

- Quanto custa?

 E lhe disse um valor aproximado.  Ele se espantou pelo preço baixo e falou:

-Me  informaram que um aparelho desses custa uma verdadeira fortuna.  Onde se consegue comprar essa engenhoca?

- Em todas as lojas de eletrodomésticos, e muitas pessoas mandavam trazer do  Paraguai, o preço é mais barato ainda, mas pode não ter tanta qualidade. 

 Apresentei o aparelhinho como se fosse um amigo querido, pois achei fantástico um senhor do interior ficar tão interessado por um eletrodoméstico apreciado mais pela juventude em geral, fiz uma baita de uma propaganda.   Por fim, depois de muitas perguntas e entusiasmadas respostas, ele me disse:

- Eu preciso comprar um, não é para mim, mas sim para minha esposa, ela também é surda.

- ???????

 

Beber ou não beber?

Particularmente não me dou muito bem com destilados, gosto mesmo é de cerveja, pois dá para sentir quando está pegando, embora as vezes eu tenha bebido além da conta achando que estava sóbrio.  A bebida fermentada é a mais antiga, contém menos álcool; já a destilada é mais recente, foi descoberta a mais ou menos 3.000 anos, mas como sou tradicional fico ainda com a cerva, não sou chegado a modismos.

É, gosto de beber cerveja, mas não vou insultar a vossa inteligência dizendo que degusto, e quem me disser que adora cerveja pelo sabor, é um mentiroso, pois tem um gosto amargo/azedo/podre/picante/acre/doce/.... Quem bebe cerveja é pela "tonturinha" que ela proporciona, a reação química do álcool que no início nos relaxa e deixa feliz.  Claro que essa perseguição ao bem estar começa a se tornar bebedeira e tu ficas caidaço a partir da terceira ou quarta garrafa, dependendo da resistência do Peão.  Se bebêssemos pelo sabor, deveríamos ficar tomando suco ou refrigerante no bar durante 3 horas, claro que isso nos deixaria gordo,  e como é melhor ficar tomando cerveja/cachaça/uisque/vodca... ficamos gordos e bêbados.

  Não quero influenciar negativamente as pessoas, mas jogar conversa fora e cerveja no mictório é um exercício social muito importante, não raro quando o bar começa a ficar vazio, juntam-se os remanescentes, os bons, numa única mesa e surgem grandes amizades mas também não raro a amizade só permanece durante o trago, no outro dia não lembram uns dos outros.  Dependendo do estado etílico do ser, temos ataques de megalomania e nos consideramos gênios, ficamos filosofando, cantamos, escrevemos textos para colocar na net achando que vamos arrasar.  O pior é publicar, tem que estar de porre mesmo.

Não fui eu que descobri isso, mas todo o excesso é nocivo.  Beber demais é prejudicial, quando você é garotão é divertido e ainda dá para rir quando você vomita dentro do bar, te levam carregado para casa ou rouba rosas e deixa na frente da casa da sua namorada, isso pode ser uma fase, porém se persistirem os sintomas procure o "AA".  Mas se você tem já a maioridade, trabalha, tem seu próprio dinheiro e sua vida é do trabalho para casa, de casa para o trabalho, nunca bebe, você também não é normal, procure com urgência um bar.

 

Beleza interior

As coisas mais hipócritas que já ouvi diz respeito à beleza interior, diz-se popularmente que o que conta é o conteúdo do ser, porém, se você não tem um chamariz externo, quem vai se aproximar o suficiente para percebê-lo na sua integralidade?  O chamariz pode ser beleza física ou dinheiro, duas qualidades que não temos culpa de nascermos sem.  

Alguns dias atrás uma conhecida minha me comentou a respeito de um rapaz cujo muitas pessoas falam mal, que é muitas vezes estúpido, mas com essa conhecida minha sempre foi gentil.  Bom, alguém já viu um marmanjo tratar mal uma mulher bonita, ser chato com ela?  A menos que essa bela mulher de alguma forma descarte todas as chances de dormir com ele, aí sim a rejeição definitiva a faz ser tratada como uma outra qualquer, uma feia.

Quantas vezes é possível que tenhamos conversado com alguém belo e não percebemos quanto superficial é essa pessoa,  nos tornamos cegos pela aparência.  Por vezes também conhecemos alguém feio e não percebemos a inteligência, o humor refinado, a cultura da mesma só porque não demos atenção o suficiente, pois não nos interessa alguém que não podemos ostentar como se fosse um objeto de luxo, é isso ai, namorar alguém belo também dá status.  

Um rosto bonito é essencial em tudo, temos mais oportunidade, as portas se abrem.  Nós, feios, nos obrigamos a estudarmos mais, nos aperfeiçoarmos mais, sermos mais inteligentes para termos quase a mesma oportunidade de um belo.  Sim, nós, feios, nos tornamos artistas, aprendemos a tocar, cantar, desenhar, somos poetas, somos sensíveis, mas jamais conseguiremos estar ao nível de um bonitão burro e grosso, pois a beleza faz até a burrice ser esquecida.  Ainda se tivermos a sorte de nascermos feios porém ricos, podemos fazer algumas plásticas, reconstruir nossa arcada dentária ou simplesmente compramos um carrão e nos tornamos belos automaticamente.  Acho uma deficiência ser feio, nos obriga a nos superarmos sempre, como se fossemos cegos ou não tivéssemos um braço, claro que depende do nível da feiúra, mas tem vezes que me sinto tetraplégico.  Claro que comigo também não aconteceu um "amor à primeira vista", como acontece com os bonitões, me dá uma inveja de ver aquela atração fatal que acontece entre os outros e nunca comigo, toda a vez que fiquei com uma mulher foi por muita insistência, acho que elas ficavam com pena e pensavam assim "tá bom! mas pára de me encher o saco!". 

Nós, feios também podemos morrer sem chamar muita atenção.  Quando acontece uma tragédia vitimando alguém belo sempre há exclamações do tipo: "Que pena, tão bonita!", então se fosse feia podia sofrer as maiores atrocidades?  Falamos sem pensar, mas não deixamos de expressar inconscientemente o nosso preconceito.

Claro que existem uma infinidade de belos, nascidos em berço de ouro, sensíveis, geniais, só para fazer nós, os feios, nos sentirmos piores ainda.  Sim, nós, os feios, somos intelectuais para compensar a feiúra, é incompreensível que alguém belo não se dedique apenas ao culto da própria imagem.  Como eu gostaria de ter nascido lindo e rico!  Com certeza eu estaria nesse momento cultuando meu corpinho numa academia e não aqui gastando meus neurônios para escrever umas bobagens recalcadas para colocar na Net.  Até criamos frases que afirmam que beleza não é tudo, nos enchemos de preconceito contra as loiras e as chamamos de burras, de alguma forma tentamos nos convencer de que Deus não poderia ser tão bondoso com alguns, dar beleza e inteligência e para nós a feiúra. 

Mas existe coisa pior que ser feio e pobre, é ser feio, pobre e burro, aí sim a vida é um martírio.  As vezes acho que é o meu caso, sou tão burro que ao invés de criar uma coluna social nesse espaço e ficar puxando o saco dos belos e ricos, de repente eles até iriam me contemplar com algumas migalhas, insisto em remar contra a maré e ficar pentelhando os afortunados belos que também não têm culpa de terem nascido assim. 

O que me conforta um pouco e ver que a natureza é sábia, não há beleza que dure a eternidade, o tempo vai tirando aquela formosura, aparecem as rugas,  algumas gordurinhas e os músculos ficam flácidos. Só que até aí não levamos vantagem, os belos não mantém a beleza jovial para sempre e se tornam velhos, porém idosos belos, e nós jovens feios também nos tornamos velhos, porém velhos feios, ainda bem que já estamos acostumados, ai, ai.

 

Minha paixão secreta

Eu cursei e me dedico às artes plásticas, desenho técnico, interiores e tudo o que puder garantir o leite da pequena Sther que está para chegar, mas minha grande paixão, que agora deixa de ser secreta, é a música.  Não trabalho e nem tomo banho sem, isso mesmo, eu coloco uma caixa acústica dentro do banheiro, programo algumas das minhas favoritas e fico curtindo, o lado negativo é que o banho demora para caramba, gastando muita água e energia.

Sim, sou um músico frustrado, nunca aprendi a tocar um instrumento, mas só em ouvir e admirar eu sinto um arrepio nos pêlos dos braços e da nuca, é um prazer quase orgasmático.  Viadagem? acho que não. Imagino que me interessei mais em desenvolver artes visuais por ser menos onerosa, para desenhar é necessário apenas um lápis e papel, para aprender a tocar é preciso comprar um instrumento, na minha situação eu não podia comprar um violão, imagina então um piano de cauda.

Comecei escutando, lááá na Serra dos Engenhos, ali por 77, sertanejo ou tudo o que dava no programa do Zé Betio na rádio Record.  Quando vim para a cidade comecei a negar minhas origens, não por ser bundão, mas não aguentava a saudade e não queria nem lembrar, então comecei a curtir música pop, algumas consideradas bregas e rock nacional que naquela época estava em ascensão. Fiz um "tour" durante muitos anos escutando músicas internacionais, meu inglês não é fluente, mas comprava revistas com a letra ou pegava do encarte do disco,  traduzia e, em muitos casos, aprendia a cantar todinha.  Se não compreendia só escutando, "imaginava que estava dizendo algo maravilhoso", como dito no filme "Um Grito de Liberdade".

Curti eletrônico, adoro experimentalismos, technopop entre outros e cheguei ao Rock Progressivo, onde me encontrei mesmo assim voltei também a escutar e admirar aquelas pop bregas e Rock Nacional.  A música brasileira é realmente ótima, exceto as que não prestam, que não vou citar para você aprender a identificar sozinho.

Existe muita coisa que conheci com o advento mp3 que curto muito, e que até coleciono em mp3, não me prendam, pois um dia quero comprar os originais.  Peguei coisas no escuro e tive gratas surpresas, conheci por acaso bandas maravilhosas, assim como tive decepções, muitas bandas divulgadas com uma música ótima, não têm muita coisa a mais com qualidade, bom ... pelo menos para o meu gosto.  

Os anos 80 foram considerados uma espécie de idade das trevas da cultura, mas muitas vezes me encontro escutando essas velhas canções num saudosismo quase doentio.  É que, na época, eu não tinha nem um gravadorzinho para registrar as minhas favoritas, eu tinha que ficar de ouvido colado no radinho e torcer para que tocasse as minhas preferidas.

Não quero criar preconceito, mas se percebe a sensibilidade de uma pessoa pela sua capacidade de gostar de música, se alguém diz que gosta já é meu amigo.  Como se sabe se realmente aprecia?  Simples, a prova é citar um gênero ou músicas favoritas, aqueles que dizem "de qualquer tipo", na verdade não tem preferências portanto não apreciam, o que é uma pena, mas é um prazer que nem todos desenvolvem.  Espero nunca perder o meu interesse pela música, assim como espero, também, nunca ficar surdo.

"A música é a base das nossas vidas", como diz naquela música "It's Alright" do Sterling Void.  Eu realmente acredito nisso, estou com um humor ótimo e com alegria de viver pois estou escutando uma das minhas músicas favoritas.  Ah, como não sei tocar nem cantar,  tenho uma banda imaginária, compomos músicas maravilhosas, não vendemos milhões porque temos a seguinte filosofia: "é preferível um fã inteligente do que um milhão de fãs dementes".  Claro que já tocamos para milhares de pessoas, mas estamos procurando um novo integrante, é que briguei com meu baterista e o expulsei da banda.

 

 

 

Lucidez

Flagrei-me espetando um milho verde com um pedaço de bambu seco para assá-lo no fogo do fogão a lenha na casa das minhas tias, no interior da cidade vizinha, numa tentativa desesperada e ridícula de resgatar algum sabor e sensação do passado da minha vida.

Digo flagrei-me porque me bateu um momento de lucidez, aqueles momentos de lucidez que lhe fazem deixar de ser feliz, lucidez que tem uma explicação científica para tudo e que lhe obstrui a inocência de ver pequenos milagres nas coisas.  Acredito que minha infância tenha sido a mais feliz que uma criança possa ter e, na medida do possível, retorno aos locais que conheci para tentar reviver alguma sensação.  Não digo que hoje eu não seja feliz, mas tenho expectativas mil e mesmo que alcance todas, não terei o que eu tinha naquela época, eu tinha o hoje e meu mundo físico não ia além do horizonte visível e bastava, se foi a minha inocência ignorante, atualmente me assimilei à sociedade, sou lúcido, adulto, tenho uma pequena noção de como o mundo funciona e é impossível ser totalmente feliz com tanta lucidez. 

Essa lucidez maldita que faz a gente ter que agir de acordo com nossa faixa etária, nos diz para não sermos velhos ridículos, sermos cidadãos pacatos, cuidarmos dos filhos com austeridade, darmos exemplo de maturidade, dizermos que não acontecia essas coisas no nosso tempo, fazendo nossas crianças crescerem guardando seus segredos e não confiando em nós, que perto delas parecemos Deuses infalíveis.  Essa lucidez que nos faz rasgar as nossas poesias de vergonha de que vão nos achar ridículos ao lerem, lucidez que nos faz conter quando imaginamos uma situação engraçada e rimos  caminhando na rua. Lucidez que nos faz representar um papel e mostrar ao mundo uma pessoa que não somos fazendo a hipocrisia perpetuar, é a lucidez que não nos faz demonstrar amor às pessoas para não parecermos fracos, essa lucidez é uma couraça que criamos para nos proteger de sermos nós mesmos e nos faz agir como convém, assim vivemos todos lúcidos, austeros e presos.  Todos temos uma criança eufórica e sensível dentro de nós, com ânsia de brincar, se divertir e sonhar, o problema é o adulto lúcido que também temos que censura todo o ato espontâneo.

Estou escrevendo esse texto agora porque estou num momento espontâneo e inocente, defendo aquele menino que estava dentro de mim, lembrando do passado através de um ato simples de assar uma espiga de milho.  A lucidez me condenou e me condena em muitos momentos da minha vida, está aflorando nesse momento e tentando me condenar por escrever esse texto, acho que vou finalizar antes que comece a escrever coisas muito sérias ou deletar o que já escrevi.

 

Marcos Roberto de Matos - 2005 - ® - Todos os direitos reservados

Desenvolvido by boca (quando o Marcos tira os óculos)

Hit Counter