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Marcos Matos, Boca,
Eu, tenho 33 anos, sou casado com Verônica e pai de Sther.
Faço de tudo um
pouco, principalmente se for relacionado a desenho ou pintura, e sou
adepto àquele ditado:
"Quem sabe
um pouco de tudo,... é ruim em tudo".
O fato é que adoro
fazer minhas coisas com as próprias mãos. Não me interpretem mal.
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Artigos contidos
nessa página: |
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Momentos
únicos |
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Uma
Mulher Inesquecível |
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Autodidata |
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O
meu primeiro amor |
| Meus
Malditos Professores |
| O filho do diretor |
| A alma e a arte |
| Walkman |
| Beber
ou não beber? |
| Beleza interior |
| Minha
paixão secreta |
| Lucidez |
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Brinde
Sorteio de uma
obra. Vá até a página principal e leia o regulamento.
Aviso aos navegantes:
É muito provável que chagaste aqui após digitar
alguma palavra num site de busca. Bom...aproveite e aprecie meus
outros predicados além dos textos à direita que provam que escrevo
divinamente bem, veja pinturas, tiras, desenhos e charges. Clique
nos links acima.
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Momentos
únicos
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Observe a figura ao
lado, não sei bem o que foi feito com ela, mas acredito que foi essa
pintura que enviei para uma professora minha, tipo: "Veja! Não
está orgulhosa do seu discípulo?". O fato é que encontrei
uma foto dessa tela que pintei em 2001, e fiquei com uma vontade imensa de
vê-la de novo, afinal foi um dos melhores quadros que pintei. O meu
primeiro pensamento foi de reproduzi-lo a partir da foto e pronto, tenho
ele de volta. Não! Não conseguiria, aquele momento foi único,
assim como muitos momentos da vida. |
Existem uma certa perda de
inspiração como observo em muitos artistas, cantores especificamente, que
fazem algumas ou alguma canção de boa aceitação em sua juventude e passam a
vida a repetindo, vivendo à sombra das mesmas, não conseguindo reproduzir o
mesmo sucesso com outras, parece que perderam aqueles momentos de genialidade.
Teoricamente com o amadurecimento e enriquecimento intelectual deveria haver
evolução no trabalho, mas praticamente isso não acontece. Ou até
acontece e nós, espectadores, nos atemos às obras de assimilação fácil
obrigando o artista a se prender ao passado para satisfazer a um público pouco
exigente, ou mesmo para encher o bolso de grana.
Há tantos momentos que não
podem ser revividos e passamos a vida inteira suspirando por eles, amores não são
só pessoas e coisas palpáveis, nossos grandes amores também são cheiros, sons,
sabores e sensações a que eles nos submetem. Odiamos muitas situações,
festas e lugares que não conhecemos ninguém, momentos de dificuldade, mas
estranhamente nos pegamos com nostalgia daquele momento, momentos difíceis também
nos dão saudade, mas provavelmente é porque já sabemos o desfecho,
sobrevivemos e ficamos mais fortes e sábios, podemos agora até rir daquele
friozinho na barriga. Cometo certa heresia ao
afirmar em determinadas conversas que a música dos anos 80 eram as melhores, ou
comento que não se fazem mais quadrinhos como antigamente, a lasanha que minha
mãe faz hoje não é igual àquela que eu comia aos 12 anos. Mas é
porque hoje eu não ouço música e leio histórias em quadrinhos com a mesma inocência e euforia que
tinha na minha pré adolescência e acho que até meu paladar está mudado.
Existem momentos que não recuperamos por nos tornarmos diferentes, se
fosse agora eu faria isso ou aquilo em determinado instante, ou não exporia tal
fato, mentiria ou falaria a verdade. Para ter uma idéia acabo de deletar
um parágrafo que escrevi com certa convicção à cinco minutos, por não
concordar mais com ele. Casais que se reencontram
e voltam a namorar depois de 40 anos talvez não sejam ainda apaixonados um pelo
outro exatamente, mas sim à juventude em que viveram juntos e querem retomá-la,
escutar as mesmas músicas, tentar viver novamente com certa impetuosidade que
é o que caracteriza mais a nossa juventude. Tenho uma teoria de que deveríamos
casar com nosso primeiro amor, pois nunca mais amaremos com a mesma inocência,
posteriormente ficamos ariscos, traumatizados, traímos e somos traídos, nossas
relações se tornam mais racionais e menos entregues de alma, sempre esperando
e preparados para um desfecho negativo. É possível que aquele momento em
que disseste "eu te amo" àquela pessoa, poderia ser verdade
naquele instante, se o momento fosse eterno o amor seria eterno, mas tudo passou,
aquele tempo não existe mais e você agora tem outro amor.
É...a situação em que
produzi a obra que deu vazão à esse devaneio não poderá ser reproduzido
nunca mais, assim como dizem que ninguém se banha nas mesmas águas do mesmo
rio duas vezes. Em primeiro lugar eu tinha 29 anos quando pintei
essas duas gordas, segundo alguns idade mental de 15, o espaço que usei como
atelier não está mais disponível, e meu nível de adrenalina não vai ser o
mesmo visto que não estarei criando, não existe a dúvida, a incerteza do
resultado final, estarei preso à foto, à tentativa de fazer parecido, não
haverá espontaneidade, os traços podem sair mais perfeitos porém travados e
inexpressivos. Em respeito a esse trabalho que chamava de "mulheres
clássicas", nem vou tentar reproduzi-la, ou até vou se mudar de idéia,
afinal amanhã é outro dia, serão outros momentos e quem sabe serei outro e,
espero, melhor.
Uma
mulher inesquecível
Quando fomos para o hospital da cidade vizinha, a obstetra era de lá, para a
minha esposa dar a luz à nossa pequena Sther, nasceram mais quatro bebês entre
aquele dia e o dia anterior. Dependendo de quem ler esse texto pode até
achar pouco, mas para a nossa região é bastante. Era mudança de
lua, o senso comum diz que nascem mais crianças nesse período, os estudiosos
dizem que não tem nada a ver mas o importante é que nesse caso o senso comum
venceu pois tem dias que não nasce ninguém. Havia um quarto em que tinha três
mães com seus respectivos filhos e tive a oportunidade de ver todos,
constatando que recém nascido não são uns iguais aos outros, como muitos
dizem. Acho que todos sabem mas é bom reafirmar que é só em novela que a
mocinha sente as contrações num lugar ermo e minutos depois dá a luz sozinha,
ou na melhor das hipóteses aparece o mocinho. Na vida real o trabalho de parto
dura horas, as vezes muitas. Então cada vez que a minha esposa ia fazer
os exames para ver a dilatação eu ia dar uma olhada nos outros bebês, por
xereta mesmo, e ao mesmo tempo tentando fazer uma projeção de como seria
a minha filha que estava para nascer.
Tinha mães acompanhadas com suas mães,
irmãos, pais e maridos, mas chamou-me atenção uma mulher que estava só e seu
filho havia nascido no dia anterior, de parto normal e ela iria para casa, ou
pelo menos sairia do hospital, naquele dia. Era uma mulher de cabelos claros,
baixa estatura, ao meu ver era bonita, todas as mães são bonitas, não
sei precisar sua idade, poderia ter 16 como 26 anos. A cada xeretada que
eu dava naquele quarto, sempre haviam pessoas visitando os dois outros bebês e
ela sempre só e, por ironia do destino, ficava separada de todos os outros pois
a porta era no meio do cômodo, sendo duas camas para a esquerda e duas para a
direita. As duas outras mães estavam para a esquerda e ela numa cama da
direita, sendo que a outra cama estava vaga. No lado esquerdo sempre
aquele alarido festejando os bebês e no lado direito apenas aquela jovem mãe
com seu neném. Eu sempre ia ver seu filho e comentava algo gentil, ou
bobo, sei lá, mas esperava que ela se sentisse menos abandonada.
Seria um caso de partenogênese, ela
teria auto fecundado e dado a luz? O que é possível, afinal a minha
esposa pariu uma menininha que é a fuça dela, não tem nada meu. Ou
aquela criança teria pai, ela teria dormido com o cara errado e ele a abandonou
ao sabê-la grávida? Seus pais estariam mortos ou a teriam abandonado à
própria sorte por ter dormido com o cara errado? Essa pobre menina também
não teria um amigo, um colega de quarto, um conhecido? Ninguém parecia
se importar com a moça, isolada no seu lado direito do quarto. Por mais
fortes e auto-suficientes que alguém seja tem momentos em que as pessoas são
mais frágeis e sensíveis que o normal e um momento desses na mulher seria a
maternidade. Até acredito que atendimento tenha sido excelente e por bons
profissionais, mas seria importante o apoio de um familiar ou amigo.
Pareceu ser uma mulher de poucas posses, estava num alojamento do SUS, breve
teria que voltar ao trabalho, acredito que teria um, pois sem ninguém zelando
por ela e pela criança ela teria que lutar sozinha. Concluí que a vida daquela
mulher não seria fácil e o seu menino teria que ser um guerreiro, assim como
sua mãe já estava sendo.
Depois do meio dia, antes de nascer a
minha filha, eu estava passeando pelo corredor, e pela porta entreaberta do cômodo
vi essa mulher arrumando a criança e seus pertences para deixar o hospital.
Logo saiu do seu quarto, com uma pequena bolsa e seu filho nos braços, coberto
com um tecido leve, caminhando devagar mas parecendo bem. Desapareceu da
minha vista quando a vi rumar para descer a escada e sair do prédio. Lá
fora eu creio que ninguém esperava por ela.
Autodidata
É comum alguém se impressionar com virtuosidades de
certos artistas e exclamar: "como queria tocar como ele!", "como
eu queria pintar igual a ele!" ou "também queria ser ator da
globo!", mas ninguém se esforça para isso. As vezes pintar, tocar ou
representar é uma obstinação na vida de alguém, que se torna verdadeiro
mestre praticamente sozinho. Mas não se iludam, ninguém pega um lápis e sai
desenhando maravilhosamente bem de início, ou pega um piano e toca sem ter uma
preparação. Tudo bem... seu filho pegou seu carro e saiu dirigindo
seguro e suavemente quando você foi ensiná-lo, você pode até achar que ele
é um talento nato, mas acredite...esse menino andou pegando seu carro
escondido. É muito glamouroso ser autodidata dá uma certa magia às coisas,
parece que tu é um gênio:
-Como tu aprendeste a tocar tão bem?
-Bom... eu estudei, me formei em música na PQP!
-Ah, bom!
Por outro lado:
-Como tu aprendeste a tocar tão bem?
-Bom...minha família tem um piano, aprendi sozinho.
-Uaauuu!!!!
Isso acontece principalmente na área artística, pois já
pensou acontecer assim:
-Doutor, obrigado, o senhor salvou a vida do meu filho,
disseram que o tumor era inoperável. Em que universidade o senhor se formou?
-Não me formei, e essa é uma clínica clandestina, eu
dissecava os porcos da minha família para estudar seus órgãos...
Também se encaixam no glamour dos autodidatas os artistas
"sem coragem". "Sem coragem" são aqueles que tem
tendência à arte, mas na hora de escolher sua profissão optaram por seguir
uma mais segura e rentável, o que não se pode condenar, pois passar
dificuldades financeiras não são todos que suportam. Os "sem
coragem" são aqueles que pegam o violão na festa e dão uma
palhinha. Aí entra a parte do glamour, o público fica boquiaberto e o
acha um fenômeno musical, que deveria ter se dedicado à música e não a ser
um próspero contador. Esse mesmo público que fica conversando e não
presta atenção no músico com coragem que dedicou sua vida à música e
batalha todos dias tocando em botecos para ganhar o pão. Os "sem
coragem" são os pintores de final de semana igual a esse que vos escreve,
que prefere apenas sonhar em ser artista, mas não tem coragem de abandonar a
banca de Hot Dog na qual trabalha e se dedicar só à pintura.
E tem pessoas que não aproveitam a magia de serem
autodidatas e tentam se aperfeiçoar, mais, mais e mais se tornar profissionais
na sua área, se iludindo que com um canudo terão mais respaldo:
-Pai, meus colegas disseram que eu desenho e pinto super
bem, queriam me comprar uns trabalhos. Acho que vou estudar desenho!
-Sei não, filho, não seria melhor cursar uma faculdade
boa... Direito, Engenharia, Medicina...?
-Não, pai, quero ser artista!!
-Tá bom...
Seis anos depois, já formado:
-Aí filho, Vendeu suas pinturas naquela exposição
coletiva?
-Nenhuma, pai...
-Caramba! Que crise, como é que vamos pagar as
prestações do seu Crédito Educativo? O pessoal não tá comprando nada mesmo,
né?
-Bem...Pai, sabe a Carlinha, aquela menina de dez anos que
pinta flores, pêras, maçãs...?
-Sim...
-Vendeu tudo!
O meu
primeiro amor
Pelo título parece aquela canção dos Fevers, realmente
tem algo a ver, vou divagar sobre a paixão platônica, um evento que,
misteriosamente, ocorre em todos os adolescentes, e até em adultos meio
emocionalmente desbitolados como eu. Não pesquisei a respeito, mas ao meu
ver Paixão Platônica é uma paixão unilateral e que, de preferência, o
objeto dela não tem conhecimento. Vitima colegas e amigos, mais especificamente
naquele tipo rapaz cuja melhor amiga, e objeto da paixão, confidencia sobre
seus fracassos amorosos e aventuras sexuais, o babaca escuta tudo, dá apoio
moral e sonha que um dia, depois que ela transar com meio mundo e estiver um
bagaço decadente, sobre algo para ele. Enfim, paixão platônica é uma
projeção que fazemos do parceiro ideal e colocamos em alguém que conhecemos
superficialmente.
Eu também, que infelizmente estou descobrindo que sou
mais comum do que supunha minha vã filosofia, fui apaixonado por uma
colega de sala de aula, é um segredo guardado a sete chaves dentro da minha
mente doente. Acho que a conheci na sétima série, e meu coração foi
fisgado quase instantaneamente. Outros colegas se abriam uns com os outros
sobre seus amores, os que ousavam se declarar levavam um"vai plantar
batatas", afinal naquela época o ficar já existia mas não era tão banal
quanto agora. Eu ficava bem quietinho, nem para os colegas eu falava da
minha paixão platônica, já pensou cair nos ouvidos dela e eu ter que plantar
batatas? Não lido bem com rejeição, é de útero, não fui um bebê
planejado e esperado, na verdade vim a furo de intrometido. Sempre fui
meio tímido, minha altura era aquém da dos meus colegas da minha idade, até
um baixinho da minha idade aqui da cidade era mais alto que eu na época, eu
tinha um certo complexo, tudo ajudava para meu amor platônico continuar platônico.
Sem falar ainda que a menina era da "High Society" e eu proletário,
apenas me sobressaía pela minha facilidade em aprender e, claro, pela minha
alma pura e imortal. Bom, como eu estava dizendo só eu sabia do meu
"amor", sonhava que poderia ser correspondido, talvez a moça tivesse
um desprendimento anormal, fosse um ser evoluído e me desse uma chance, então
seria assim: uma menina bonita e rica que amaria um baixinho, feio, dentuço e
pobre. Que garota de outro mundo!
Essa paixão durou aproximadamente dois anos, até que um
dia uma professora fez uma pesquisa de opinião entre nós alunos, se era aceitável,
se daria certo relações amorosas ou casamento entre pessoas de classes sociais
diferentes. A maioria avassaladora dos alunos, inclusive eu, responderam
que sim, claro, não tem nada a ver separar amor por classe social, não seria
correto, não seria romântico. Claro que a resposta foi por já sermos pequenos
hipócritas ou por acharmos que essa seria a resposta politicamente correta.
Para minha surpresa a minha amada respondeu que cada um deveria achar seu par
romântico entre sua patota, seu círculo social e argumentou alguma coisa que não
consigo me lembrar, eu estava no instante catando pedaços do meu pobre coração.
Acabou meu amor, perdi até o direito de sonhar com ela, nossos lindos filhos
nunca existirão, não cheguei a odiá-la, mas reconheci a minha derrota e minha
auto estima que já estava em baixa desceu ao porão.
Não me lembro se fui colega dela no ano seguinte e não a
vejo a muitos anos. Até hoje é segredo a minha primeira paixão platônica,
tive outras mas não alimentei tanto quanto esta. Não chorei ou me
descabelei como fazem muitos e, hoje, admiro a audácia daquela menina que aos
quatorze anos não se rendeu à hipocrisia do não preconceito e teve a coragem
de falar o que pensava, sem saber que naquele momento perderia o homem que a
faria a mulher mais feliz do mundo, eu.
Meus
Malditos Professores
Ainda lembro da minha primeira professora, Senira, ela
dava aula da primeira à quarta série do primário, primeira e terceira pela
tarde e segunda e quarta pela manhã, na mesma sala, era um contorcionismo
gigantesco. A escola era de madeira com aproximadamente 8,00 x 20,00 m,
dividida ao meio por um biombo, normalmente se usava apenas uma das duas salas.
Se o ensino era prejudicado? Nem tanto, eu passei, aprendi a ler e
escrever assim como muitos outros. Para me deslocar para essa escolinha eu
caminhava com alguns primos por uns quatro quilômetros, sacrifício? Também
não, eu achava normal e muitas vezes percorria o trajeto puxando um caminhãozinho.
Cursei a primeira e segunda série nessa escola,
nesse meio tempo foi construída uma outra escola a uns 500 metros da minha
casa, onde cursei a terceira e quarta séries. Nessa fase tive a
professora Cleci e Marinês, para mim eram duas adultas, mas hoje, pensando bem,
eram meninas recém formadas no magistério, com 17 ou 18 anos cada uma.
Elas dormiam na cozinha da escolinha, longe de tudo e de todos, no final da
semana iam para a casa dos pais. Essa escolinha era ainda menor que a
outra, sala única, o sistema era igual, duas séries por turno.
Naquela localidade só tinha ensino até a quarta série, tive que mudar para
esta cidade, Tapera, que também não é nenhuma metrópole, com o objetivo de
concluir o primeiro e segundo grau.
Já na cidade, recordo da professora que me viu esconder
um chocolate sob a blusa e gentilmente me fez colocar de volta na prateleira do
supermercado, era meu primeiro delito, e graças a essa professora, foi o único.
Sem essa intervenção eu poderia ser bem sucedido no pequeno furto e, quem sabe
futuramente, continuado na contravenção, não sei mas é uma possibilidade,
talvez eu começasse a me acostumar e perderia a vergonha na cara. Creio
que essa professora nem lembra do fato mas eu a reconheço e tenho por ela muita
gratidão, ela foi minha professora um ou dois anos depois do acontecido.
Quando resolvi fazer uma faculdade de artes, pois era o
que eu tinha mais afinidade, o meu principal objetivo era apenas aprimorar
a técnica e pintar paisagens paradisíacas, quadros simples, de assimilação fácil.
Sofri uma verdadeira lavagem cerebral pelas minhas professoras, além de
desenho, pintura, gravura, escultura, recebi doses maciças de história da
arte, impressionismo, expressionismo, futurismo, orfismo e trocentos "ismos"
resultado: saí da faculdade buscando fazer um trabalho próprio, querendo fazer
arte. Por isso o título desse texto "meus malditos professores",
é... ao invés de me ensinarem a ganhar dinheiro usando as minhas habilidades
de desenhista, simplesmente insistiram e me fazer evoluir culturalmente e como
ser humano. Entrei com um objetivo simples e saí com grandes ambições,
mas como o mundo não quer saber de arte, me tornei um ser estranho nadando
contra a corrente, parece que não sintonizo com mais ninguém, agora terei que
fazer um tratamento intensivo, uma reabilitação para viver novamente em
sociedade. Não achei que estava tão gravemente afetado, mas a gota dágua
foi a uns dias, enquanto amaldiçoava um cantorzinho num programa de TV, minha
esposa disse "Pô Boca! Você não gosta de nada", descobri que estou
ficando chato.
São tantos professores e tantas disciplinas que não convém
ficar citando todos, de uns lembro o lado ruim, de outros o lado bom, mas o fato
é que de alguma forma todos contribuíram para a minha formação, até os que
me fizeram ter uma má impressão me prepararam para a vida, afinal a vida não
é sorridente e positiva o tempo todo. Professores me fizeram sentir Rei,
professores me fizeram sentir indigente, sei que muitas pessoas não dão atenção
à opinião dos professores, mas eu acreditava que todos fossem seres
superiores, uma repreensão por parte deles era a derrota, um sorriso era a vitória.
Tem pessoas que morrem sem ir a um médico, muitos não precisam de advogados e
uns não sabem o que faz um economista, mas felizmente no mundo atual em que a
educação está cada vez mais presente, todos passam pela escola, e
consequentemente sob a supervisão de professores, sofrendo influencia por parte
deles, portanto professores não são meros educadores, e nem devem se contentar
em ser apenas isso, professores mudam vidas.
O filho do diretor
Em anúncios da TV da região a alguns anos apareceu
seguidamente um rapaz, inexpressivo e sem jeito para o vídeo, sofrível,
comecei a questionar como ele poderia ter chegado a fazer tantos comerciais sem
ter o talento para isso, me surgiu a única resposta plausível: Ele era filho
do diretor. Então se virem pessoas incompetentes trabalhando na TV, comércio,
repartições ou qualquer local, pode crer que é o "filho do
diretor".
Certamente o filho do diretor já foi seu colega de aula,
ele te aloprava quando você ia apresentar um trabalho, te jogava giz e os
professores faziam de conta que não enxergavam. Se você tentava revidar,
opa!... ninguém mexe com o filho do diretor. O filho do diretor já
nasceu para o sucesso, ele é iluminado, sempre mandou os colegas colocarem seu
nome nos trabalhos enquanto ele jogava bola com outros filhos de diretores.
O filho do diretor sempre pedia um pedaço do seu lanche quando você levava, e
é obvio que você dava, é bom ser amigo do filho do diretor, já ele, que
comprava lanche todos o dias, nunca lhe ofereceu sequer uma mordida.
O filho do diretor é menos nocivo para a sociedade quando
não trabalha, mas mesmo assim ele anda sempre de carro do ano, faz muita festa
com dinheiro do papai, só fala babaquices e mesmo assim anda sempre rodeado de
mulheres, afinal homens misteriosos são atraentes, o mistério de ter sucesso
sem muito esforço, estudo ou trabalho. Ele é acostumado a receber tudo de mão
beijada e acredita que todos tem que fazer as suas vontades, se não fazem ele
esperneia e chora até o diretor dar um jeito de satisfazê-lo. O seu umbiguinho
é o centro do mundo. O Filho do diretor só quer a projeção do seu nome,
afinal o seu ego é bem maior que sua autocrítica.
O filho do diretor não é necessariamente filho do
diretor, mas um protegido dele, um apadrinhado, filho de um apoiador de campanha
política que não deu certo em nada, também pode ser o sobrinho ou parente de
um Nepotista. O seu caráter é duvidoso, ele sabe que não é produtivo,
que só está mamando nas tetas e mesmo assim não se importa, não se aperfeiçoa
e só quer ganhar o seu gordo salário no final do mês.
O filho do diretor aparece nos programas de auditório
sempre que lança um CD novo, o apresentador como bom vaselina sempre diz que
"ninguém fica tanto tempo na mídia se não tem talento", e coloca o
rapaz tocar ao vivo para tentar provar que não é só um mala. É notório
que com um bom marketing, pago pelo diretor, claro, qualquer porcaria vende como
água, afinal o país é cheio de filhos de diretores, que consomem o que está
na mídia. Decididamente o filho do diretor não tem personalidade, coloca
para escutar a música mais pedida no rádio, se o pagode está em alta, escuta
pagode, se a onda é sertanejo o indivíduo escuta sertanejo. Ninguém é
mais volúvel que o filho do diretor, segue sempre as tendências da moda, usa
até brinco, pircings e tatuagens embora secretamente ache bastante desconfortável.
Pode-se reconhecer em muitos lugares o filho do diretor,
é incompetente, não sabe realizar seu trabalho e surpreendentemente não é
demitido. Se ele é seu colega, pior ainda, você sua às bicas para fazer seu
trabalho e o dele também, ele é medíocre mas ganha o triplo que você.
Ele recebe todos os méritos do sucesso da empresa e elogios do chefe, está em
todos os coquetéis representando a empresa, é o rostinho bonito. Quando o
trabalho fica bom o mérito é dele, quando não agrada a culpa é toda sua.
O Filho do diretor que faz as coisas não funcionarem, é
um burocrata que pede até o seu teste do pezinho para liberar um processo,
assim ele mostra trabalho. Ele é o causador de filas Quilométricas e de
atrasos, o Brasil é um país de terceiro mundo por culpa deles. Caso você
que está lendo esse texto se identifique com o filho do diretor, vou reservar
um espaço nessa página para um direito de resposta. Pode mandar.
A alma e a arte
Acredito piamente que o artista
tem que ter alma de artista, não apenas pelas habilidades motoras, nem só pela criatividade, mas
principalmente pelo anseio de expressão e inovação. Os artistas chegam a
ser, em alguns momentos, considerados inoportunos pela dificuldade de
satisfação com o contexto político, social e até consigo mesmos.
Observo músicos, cantores, pintores que se contentam
simplesmente em repetir algum trabalho consagrado, essas pessoas não são
propriamente artistas, com certeza eles têm a habilidade, a técnica mas não
têm a alma para se desprender do pronto.
Na mente desses diamantes brutos passa a idéia de que cantando, tocando,
pintando, desenhando igual a
fulano de tal eles passam a ser muito equiparado a seu ídolo, não percebendo que
ser único é a maior característica artística do que ser igual.
Claro que não é qualquer um que desenha, toca, pinta ou canta, mas entre ter
habilidades um pouco acima da média e ser especial tem diferenças enormes.
Pessoas se tornam verdadeiros artistas a partir do momento em que desenvolvem
sua técnica e passam a ser autores da sua obra, começam a
compor ou colocar uma interpretação pessoal que os caracteriza como seres
especiais.
Não basta ter talento técnico, tem que ter alma, o
artista quer gritar, expor sua individualidade através da sua obra. Uma boa técnica
é imprescindível ao artista, para poder expressar-se na sua plenitude
quando requer um trabalho de execução mais perfeita, mas não se resume só a
isso. O ser humano é capaz de aprender desde que tenha o
interesse o suficiente, a técnica uns aprendem em um ano, uns em cinco, outros
em dez anos, mas criar depende muito do conhecimento
sobre a sua área e, principalmente, da sua necessidade de expressão. Não defendo que um músico ou artista plástico deva
ter educação formal, mas se ele tem mesmo alma de artista, além de
dominar a técnica ele estuda com afinco, embora autodidata, a história do seu
ofício porque não há talento que resista à ignorância. A arte é liberdade e expressão, se você
reproduz uma obra, está
fadado a ficar preso àquele resultado final pré-estabelecido e não expressa
nada de si, afinal o que é a obra senão a alma nua do seu autor? Se alguém
cria é porque tem algo a dizer, se não cria, passa a ser a sombra do que copia.
Se formos observar, cantores compositores
da sua obra, não executam em shows a música igual está na gravação original, e
bandas de garagem, muitas com excelentes instrumentistas, tendem a tentar
repetir a melodia como escutam, chegando ao extremo de tentar fazer até a voz
igual. Há também aqueles que usam suas técnicas artísticas e
se aproveitam da ignorância dos incautos, se apresentam
como artistas e fazem das habilidades um verdadeiro caça níquel fazendo
musiquinhas da estação, sem conteúdo, seguindo tendências para ludibriar,
vender e encher o bolso de grana, isso também se repete em outras atividades
artísticas. Existem artistas talentosos na miséria e anonimato, fazendo um
trabalho autêntico, enquanto oportunistas se deleitam na mídia vendendo gato
por lebre e usam como desculpa a célebre frase "É disso que o povo
gosta". Claro que não podemos ficar todo o nosso tempo de lazer
resolvendo os problemas do mundo, mas essa campanha de imbecilização cria
zumbis sem senso crítico, e que acreditam que o belo é fazer rebolar a bunda.
Não sei se vale a pena
morrer na miséria em nome de um ideal artístico, tentando fazer um trabalho
autêntico apreciado por poucos e odiado por muitos, mas não podemos perder a
esperança de que a qualidade vencerá a futilidade um dia, quiçá enquanto
estivermos vivos. Infelizmente viver exclusivamente de arte genuína não
é fácil, nos obrigamos a desenvolver outras habilidades que nos permitam ganhar
a vida sem vendermos a alma, mas, particularmente, vou me revirar no caixão se vier a morrer na miséria e
pouco depois algum crítico de arte me considerar um talento incompreendido.
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Walkman
A alguns anos, logo
que vim para a cidade, seguido eu ia passar os fins de semana na
localidade onde passei a minha infância. Eu tomava um ônibus
até a cidade vizinha que fica a 9 Km daqui e depois pegava um que
ia 40 Km pelo interior adentro. Essa viagem de 40 Km
durava aproximadamente uma hora e meia, pois entravam e saiam
pessoas por todo o trajeto, então eram inúmeras as paradas, tornando
a viagem mais demorada, além de que a estrada de chão, as vezes,
estava em péssimo estado de conservação.
Para descontrair e
passar o tempo, num desses passeios pedi emprestado ao meu colega de
trabalho um Walkman, rádio AM/FM e toca fitas, que ele tinha, isso
era por volta de 1989. Ia eu muito orgulhoso escutando uma
musiquinha com os fones de ouvido, quando fui interpelado por um
senhor de aproximadamente 45 anos, que estava ao meu lado.
Esse senhor estava vestido à caráter, isto é, botas, bombacha,
cinto, lenço no pescoço e chapéu preto, na cidade muitos usam
para parecerem tradicionalistas, mas lá usam porque é a vestimenta
de gala, muito mais do que usar um Smoking. Simplesmente diminuí o volume e comecei a falar com ele. Era
um homem muito gentil
que me perguntou:
- Tu ouves bem com aquele aparelho?
-Escuto perfeitamente!
- Quanto custa?
E lhe
disse um valor aproximado. Ele se espantou pelo preço
baixo e falou:
-Me informaram que um aparelho desses
custa uma
verdadeira fortuna. Onde se consegue comprar essa engenhoca?
- Em todas as lojas de
eletrodomésticos, e muitas pessoas mandavam trazer do
Paraguai, o preço é mais barato ainda, mas pode não ter tanta
qualidade.
Apresentei o
aparelhinho como se fosse um amigo querido, pois achei fantástico
um senhor do interior ficar tão interessado por um eletrodoméstico
apreciado mais pela juventude em geral, fiz uma baita de uma
propaganda. Por fim, depois de muitas perguntas e
entusiasmadas respostas, ele me disse:
- Eu preciso comprar um, não é para
mim, mas sim para minha esposa, ela também é surda.
- ???????
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Beber
ou não beber?
Particularmente não
me dou muito bem com destilados, gosto mesmo é de cerveja, pois dá
para sentir quando está pegando, embora as vezes eu tenha bebido
além da conta achando que estava sóbrio. A bebida fermentada
é a mais antiga, contém menos álcool; já a destilada é mais
recente, foi descoberta a mais ou menos 3.000 anos, mas como sou
tradicional fico ainda com a cerva, não sou chegado a modismos.
É, gosto de beber
cerveja, mas não vou insultar a vossa inteligência dizendo que
degusto, e quem me disser que
adora cerveja pelo sabor, é um mentiroso, pois tem um gosto
amargo/azedo/podre/picante/acre/doce/.... Quem bebe cerveja é pela "tonturinha"
que ela proporciona, a reação química do álcool que no início nos relaxa e
deixa feliz. Claro que essa perseguição ao bem estar começa a se tornar
bebedeira e tu ficas caidaço a partir da terceira ou quarta garrafa, dependendo da
resistência do Peão. Se bebêssemos pelo sabor, deveríamos ficar
tomando suco ou refrigerante no bar durante 3 horas, claro que isso nos deixaria
gordo, e como é melhor ficar tomando cerveja/cachaça/uisque/vodca...
ficamos gordos e bêbados.
Não quero
influenciar negativamente as pessoas, mas jogar conversa fora e
cerveja no mictório é um exercício social muito importante, não
raro quando o bar começa a ficar vazio, juntam-se os
remanescentes, os bons, numa única mesa e surgem grandes amizades mas também
não raro a amizade só permanece durante o trago, no outro dia não
lembram uns dos outros. Dependendo
do estado etílico do ser, temos ataques de megalomania e nos
consideramos gênios, ficamos filosofando, cantamos, escrevemos textos para colocar na net achando que vamos
arrasar. O pior é publicar, tem que estar de porre mesmo.
Não fui eu que
descobri isso, mas todo o excesso é nocivo. Beber demais é
prejudicial, quando você é garotão é divertido e ainda dá para
rir quando você vomita dentro do bar, te levam carregado para casa
ou rouba rosas e deixa na frente da casa da sua namorada, isso
pode ser uma fase, porém se persistirem os sintomas procure o
"AA". Mas se você tem já a maioridade, trabalha,
tem seu próprio dinheiro e sua vida é do trabalho para casa, de
casa para o trabalho, nunca bebe, você também não é normal,
procure com urgência um bar.
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Beleza interior As coisas mais hipócritas que já
ouvi diz respeito à beleza interior, diz-se popularmente que o que
conta é o conteúdo do ser, porém, se você não tem um chamariz externo, quem vai se
aproximar o suficiente para percebê-lo na sua integralidade? O
chamariz pode ser beleza física ou dinheiro, duas qualidades que não
temos culpa de nascermos sem.
Alguns dias atrás uma conhecida minha me comentou a
respeito de um rapaz cujo muitas pessoas falam mal, que é muitas vezes estúpido, mas com
essa conhecida minha sempre foi gentil. Bom, alguém já viu um marmanjo tratar mal
uma mulher bonita, ser chato com ela? A menos que essa bela mulher de alguma forma descarte todas as chances de dormir com ele, aí
sim a rejeição definitiva a faz ser tratada como uma outra qualquer, uma
feia.
Quantas vezes é possível
que tenhamos conversado com alguém belo e não percebemos quanto
superficial é essa pessoa, nos tornamos cegos pela aparência.
Por vezes também conhecemos alguém feio e não percebemos a inteligência,
o humor refinado, a cultura da mesma só porque não demos atenção o
suficiente, pois não nos interessa alguém que não podemos ostentar como
se fosse um objeto de luxo, é isso ai, namorar alguém belo também
dá status.
Um rosto bonito é essencial em tudo, temos mais oportunidade, as portas
se abrem. Nós, feios, nos obrigamos a
estudarmos mais, nos aperfeiçoarmos mais, sermos mais inteligentes para termos quase a mesma oportunidade de um belo. Sim, nós, feios, nos tornamos artistas, aprendemos a tocar, cantar, desenhar,
somos poetas, somos sensíveis, mas jamais conseguiremos estar ao nível
de um bonitão burro e grosso, pois a beleza faz até a burrice ser
esquecida. Ainda se tivermos a sorte de nascermos feios porém
ricos, podemos fazer algumas plásticas, reconstruir nossa arcada
dentária ou simplesmente compramos um carrão e nos tornamos belos
automaticamente. Acho uma deficiência ser
feio, nos obriga a nos superarmos sempre, como se fossemos cegos ou não
tivéssemos um braço, claro que depende do nível da feiúra, mas tem vezes
que me sinto tetraplégico. Claro que comigo também não
aconteceu um "amor à primeira vista", como acontece com
os bonitões, me dá uma inveja de ver aquela atração fatal que
acontece entre os outros e nunca comigo, toda a vez que fiquei com
uma mulher foi por muita insistência, acho que elas ficavam com
pena e pensavam assim "tá bom! mas pára de me encher o
saco!".
Nós, feios também podemos morrer sem chamar
muita atenção. Quando acontece uma tragédia
vitimando alguém belo sempre há exclamações do tipo: "Que pena,
tão bonita!", então se fosse feia podia sofrer as maiores
atrocidades? Falamos sem pensar, mas não deixamos de expressar
inconscientemente o nosso preconceito.
Claro que existem uma infinidade de
belos, nascidos em berço de ouro, sensíveis, geniais, só para fazer
nós, os feios, nos sentirmos piores ainda. Sim, nós, os feios,
somos intelectuais para compensar a feiúra, é incompreensível que
alguém belo não se dedique apenas ao culto da própria imagem. Como eu gostaria de ter nascido
lindo e rico! Com certeza eu estaria nesse momento cultuando meu
corpinho numa academia e não aqui gastando meus neurônios para
escrever umas bobagens recalcadas para colocar na Net. Até criamos
frases que afirmam que beleza não é tudo, nos enchemos de preconceito
contra as loiras e as chamamos de burras, de alguma forma tentamos nos
convencer de que Deus não poderia ser tão bondoso com alguns, dar beleza
e inteligência e para nós a feiúra.
Mas existe coisa pior que ser feio e pobre, é ser
feio, pobre e burro, aí sim a vida é um martírio. As vezes acho
que é o meu caso, sou tão burro que ao invés de criar uma coluna social
nesse espaço e ficar puxando o saco dos belos e ricos, de repente eles
até iriam me contemplar com algumas migalhas,
insisto em remar contra a maré e ficar pentelhando os afortunados belos
que também não têm culpa de terem nascido assim.
O que me conforta um pouco e ver que a natureza é sábia,
não há beleza que dure a eternidade, o tempo vai
tirando aquela formosura, aparecem as rugas, algumas gordurinhas e os
músculos ficam flácidos. Só que até aí não levamos vantagem,
os belos não mantém a beleza jovial para sempre e se tornam
velhos, porém idosos belos, e nós jovens feios também nos
tornamos velhos, porém velhos feios, ainda bem que já estamos
acostumados, ai, ai.
Minha
paixão secreta
Eu cursei e me dedico às artes
plásticas, desenho técnico, interiores e tudo o que puder garantir o
leite da pequena Sther que está para chegar, mas minha grande paixão,
que agora deixa de ser secreta, é a música. Não trabalho e nem
tomo banho sem, isso mesmo, eu coloco uma caixa acústica dentro do
banheiro, programo algumas das minhas favoritas e fico curtindo, o lado
negativo é que o banho demora para caramba, gastando muita água e
energia.
Sim, sou um músico frustrado, nunca
aprendi a tocar um instrumento, mas só em ouvir e admirar eu sinto um
arrepio nos pêlos dos braços e da nuca, é um prazer quase orgasmático.
Viadagem? acho que não. Imagino que me interessei mais em desenvolver
artes visuais por ser menos onerosa, para desenhar é necessário apenas
um lápis e papel, para aprender a tocar é preciso comprar um instrumento,
na minha situação eu não podia comprar um violão, imagina então um
piano de cauda.
Comecei escutando, lááá na Serra dos Engenhos,
ali por 77, sertanejo ou
tudo o que dava no programa do Zé Betio na rádio Record. Quando
vim para a cidade comecei a negar minhas origens, não por ser bundão,
mas não aguentava a saudade e não queria nem lembrar, então comecei a curtir
música pop, algumas consideradas bregas e rock nacional que naquela
época estava em ascensão. Fiz um "tour" durante
muitos anos escutando músicas internacionais, meu inglês não é
fluente, mas comprava revistas com a letra ou pegava do encarte do
disco, traduzia e, em muitos casos, aprendia a cantar todinha.
Se não compreendia só escutando, "imaginava que estava dizendo algo
maravilhoso", como dito no filme "Um Grito de Liberdade".
Curti eletrônico, adoro
experimentalismos, technopop entre outros e cheguei ao Rock Progressivo,
onde me encontrei mesmo assim voltei também a escutar e admirar aquelas
pop bregas e Rock Nacional. A música brasileira é
realmente ótima, exceto as que não prestam, que não vou citar para
você aprender a identificar sozinho.
Existe muita coisa que conheci com o
advento mp3 que curto muito, e que até coleciono em mp3, não me prendam, pois
um dia quero comprar os originais. Peguei coisas no escuro e
tive gratas surpresas, conheci por acaso bandas maravilhosas, assim como
tive decepções, muitas bandas divulgadas
com uma música ótima, não têm muita coisa a mais com qualidade, bom ...
pelo menos para o meu gosto.
Os anos 80 foram considerados uma
espécie de idade das trevas da cultura, mas muitas vezes me encontro
escutando essas velhas canções num saudosismo quase doentio. É
que, na época, eu não tinha nem um gravadorzinho para registrar as
minhas favoritas, eu tinha que ficar de ouvido colado no radinho e torcer
para que tocasse as minhas preferidas.
Não quero criar preconceito, mas se
percebe a sensibilidade de uma pessoa pela sua capacidade de gostar de
música, se alguém diz que gosta já é meu amigo. Como se sabe se
realmente aprecia? Simples, a prova é citar um gênero ou músicas
favoritas, aqueles que dizem "de qualquer tipo", na verdade não
tem preferências portanto não apreciam, o que é uma pena, mas é um
prazer que nem todos desenvolvem. Espero nunca perder o meu
interesse pela música, assim como espero, também, nunca ficar surdo.
"A música é a base das nossas
vidas", como diz naquela música "It's Alright" do Sterling
Void. Eu realmente acredito nisso, estou com um humor ótimo e com
alegria de viver pois estou escutando uma das minhas músicas favoritas.
Ah, como não sei tocar nem cantar, tenho uma banda imaginária,
compomos músicas maravilhosas, não vendemos milhões porque temos a
seguinte filosofia: "é preferível um fã inteligente do que um
milhão de fãs dementes". Claro que já
tocamos para milhares de pessoas, mas estamos procurando um novo
integrante, é que briguei com meu baterista e o expulsei da banda.
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Lucidez
Flagrei-me espetando um milho verde
com um pedaço de bambu seco para assá-lo
no fogo do fogão a lenha na casa das minhas tias, no interior da
cidade vizinha, numa tentativa
desesperada e ridícula de resgatar algum sabor e sensação do
passado da minha vida.
Digo flagrei-me porque me bateu um
momento de lucidez, aqueles momentos de lucidez que lhe fazem deixar
de ser feliz, lucidez que tem uma explicação científica para tudo
e que lhe obstrui a inocência de ver pequenos milagres nas
coisas. Acredito que
minha infância tenha sido a mais feliz que uma criança possa ter
e, na medida do possível, retorno aos locais que conheci para
tentar reviver alguma sensação. Não digo que hoje eu não seja feliz, mas tenho
expectativas mil e mesmo que alcance todas, não terei o que eu
tinha naquela época, eu tinha o hoje e meu mundo físico não ia
além do horizonte visível e bastava, se foi a
minha inocência ignorante, atualmente me
assimilei à sociedade, sou lúcido, adulto, tenho uma pequena noção de como o
mundo funciona e é impossível ser totalmente feliz com tanta
lucidez.
Essa lucidez maldita que faz a gente
ter que agir de acordo com nossa faixa etária, nos diz para não
sermos velhos ridículos, sermos cidadãos pacatos, cuidarmos dos filhos
com austeridade, darmos exemplo de maturidade, dizermos que não
acontecia essas coisas no nosso tempo, fazendo nossas crianças
crescerem guardando seus segredos e não confiando em nós, que
perto delas parecemos Deuses infalíveis. Essa lucidez que nos
faz rasgar as nossas poesias de vergonha de que vão nos achar
ridículos ao lerem, lucidez que nos faz conter quando
imaginamos uma situação engraçada e rimos caminhando na rua. Lucidez que nos faz representar um papel e
mostrar ao mundo uma pessoa que não somos fazendo a hipocrisia
perpetuar, é a lucidez que não nos faz demonstrar amor às
pessoas para não parecermos fracos, essa lucidez é uma couraça
que criamos para nos proteger de sermos nós mesmos e nos faz agir
como convém, assim vivemos todos lúcidos, austeros e presos. Todos temos uma criança eufórica e sensível
dentro de nós, com ânsia de brincar, se divertir e sonhar, o
problema é o adulto lúcido que também temos que censura todo o
ato espontâneo.
Estou escrevendo esse texto agora
porque estou num momento espontâneo e inocente, defendo aquele menino que estava dentro
de mim, lembrando do passado através de um ato simples de assar uma
espiga de milho. A lucidez me condenou e me condena em
muitos momentos da minha vida, está aflorando nesse momento e
tentando me condenar por escrever esse texto, acho que vou finalizar
antes que comece a escrever coisas muito sérias ou deletar o que
já escrevi.
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Marcos
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os óculos)
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